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Como o fim do socialismo influiu na eclosão da Guerra Russo-Ucraniana

Muitas causas históricas têm sido levantadas para explicar o conflito atual, mas, na verdade, as razões decisivas são mais recentes. A Rússia nasceu em Kiev (o Russ de Kiev, hoje Kiyv) na Idade Média, e russos e ucranianos compartilham uma história comum, com raras interrupções, geralmente decorrentes de conflitos internacionais. Pertencem ao mesmo grupo etnolinguístico e são a variação regional de um mesmo povo. 

Durante a Primeira Guerra Mundial houve ocupação alemã e o surgimento de poderes rivais em guerra civil na Ucrânia. Em 1920 parte dela (Lviyv) ficou sob domínio polonês, e o centro e o leste formaram a República Socialista Soviética da Ucrânia, parte integrante da URSS. Houve a valorização da cultura e da língua ucraniana (até então pouco falada nas cidades). Mas as fronteiras da federação foram um arranjo político, que associou a região industrial russófona do Donbass à parte ocidental, agrária e mais conservadora, como forma de equilíbrio de poder.

Ainda que a Ucrânia tenha sofrido  o maior impacto da coletivização da agricultura (junto com o Cazaquistão) e grande parte dos combates da Segunda Guerra Mundial em seu território, houve modernização e desenvolvimento. O Homo Sovieticus era o mesmo nas 15 Repúblicas federadas, sendo que durante os 74 anos de existência da URSS, ela foi governada 30 por um georgiano, 30 por dois ucranianos e quase 14 por russos. Mas o mais importante é que a economia foi estruturada e integrada no plano federal, pois as repúblicas eram como os estados brasileiros, e houve intensas migrações internas e miscigenação.

A Perestroika de Gorbachev, que provocou o colapso do socialismo soviético e desintegroua União Soviética, foi mal-recebida pela facção ucraniana do Partido Comunista, que se fortalecera nos governos de Krushev e Brejnev (1953-82). O fim do socialismo gerou dois problemas, que estão na raiz do trágico conflito russo-ucraniano, ato final de um “divórcio litigioso”. O primeiro foi o impacto interno da desintegração da URSS e o segundo foram suas consequências mundiais.

Quanto ao primeiro aspecto, houve a ruptura das cadeias produtivas e logísticas; indústrias, energia, transportes e recursos naturais foram fragmentadas. Outro problema foi a crise de governança gerada pelo súbito desaparecimento do Partido Comunista e do Governo Federal. A Ucrânia sofreu mais, pois a Rússia, sediada em Moscou, herdou a estrutura central. O terceiro ponto foi a necessidade de criar uma nova identidade “nacional” em lugar da soviética, que era plurinacional. A Federação Russa, com diz o nome, manteve um sistema federal, mas a Ucrânia e as demais optaram por se definirem como nação de um povo, descontentando as minorias. Há imensas comunidades ucranianas no Báltico, em várias partes da Rússia e da Ásia Central.

No tocante ao segundo aspecto, a Rússia herdou a representação internacional da URSS: Conselho de Segurança da ONU, representações diplomáticas e status nuclear, o que agravou o ressentimento da Ucrânia, que já vinha da divisão da esquadra do Mar Negro. Mas surgiu um grave desequilíbrio global. O fim do Pacto de Varsóvia e, depois, da URSS, propiciaram o avanço da OTAN sobre o leste europeu e, depois, das repúblicas bálticas. A enfraquecida Rússia se sentia ameaçada e a Ucrânia se tornou o pivô da crise: haveria adesão à OTAN? Ela era “irmã eslava” menor, com peso demográfico (50 milhões de habitantes), fortes conexões econômicas e posição geopolítica vital. Os oleodutos e gasodutos Rússia-Europa passavam por seu território e ela controlava o Mar Negro e, se aliada ao Ocidente, traria o sistema de armas da OTAN para a fronteira russa.

Quando Putin assumiu, passou a reerguer a Rússia, o que desagradou aos EUA. A dependência energética e cooperação russo-europeia, aliada à instabilidade crônica da Ucrânia, complicaram a situação. As Revoluções Coloridas pró-Ocidentais em Kiev em 2004 e 2014, levaram a um conflito que se tornou guerra aberta em 2022. Na raiz de tudo estão as promessas não cumpridas que o Ocidente fez a Gorbachev para se retirar do leste europeu e o caráter caótico e traumático da desintegração da superpotência socialista soviética para as duas maiores repúblicas. A guerra atual constitui mais uma das ondas de choque geradas pelo fim do socialismo.

Por Paulo G. Fagundes Visentini, docente do curso “Por que o socialismo ruiu?”

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